Megapixels e outras Besteiras, parte 2

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omo vimos antes, megapixels é uma medida de área criada para impressionar os consumidores e levá-los a achar que qualquer melhorazinha em um sensor é um enorme salto à frente.

Deixei todo mundo triste ao contar que uma melhora expressiva no tamanho de um sensor, como dobrar suas dimensões lineares (base e altura), significa quadruplicar seus megapixels. A Canon acaba de lançar sua 5DS (ou R) de 50MP – o primeiro progresso relevante (em termos de megapixels) desde os 12MP.

Precisamos chorar por isso? Nope. Megapixels não são, nem de longe, a característica mais relevante em uma DSLR; mas antes de entrar no que realmente nos interessa para fazer uma boa captura de imagem, o que farei em outro post, vamos nos adiantar e ir direto ao fim do processo: o que faremos com a imagem?

Imagens Impressas

Eu acredito que uma imagem só passa a existir quando está impressa em papel de boa qualidade. É uma mania minha, e isto vale para imagens feitas em película e para captura digital. As imagens que ainda não imprimi ou ampliei não existem, são apenas negativos ou arquivos sem significado. Todo o meu fluxo de trabalho é voltado para impressão, e há muito defini os três tamanhos que gosto e que sinto que servem melhor às imagens que faço: 24x30cm, 30x40cm e 40x50cm. ocasionalmente faço cópias maiores, com 1 metro de lado, desde que esteja trabalhando com película 4×5″ (9x12cm).

A resolução de imagem na captura digital é expressa em pontos por polegada (PPI ou DPI), e a resolução gráfica das imagens impressas é medida em linhas por polegada (LPI). Uma LPI é igual a dois DPIs.

Encontramos fotografias impressas em livros de arte, paredes (alta resolução), revistas, cartazes e outdoors (baixa resolução) e jornais (baixíssima resolução).

Um bom livro de arte tem resolução gráfica de 150 linhas, o que se produz a partir de uma foto de 300dpi. Minha Canon 6D produz um arquivo de cerca de 30x45cm de tamanho com esta resolução, o que é maior que a média dos livros de mesa e capa dura. Esta resolução gráfica permite que olhemos a foto com uma lente sem perda significativa de definição.

As fotos impressas para exibição na parede são pensadas para serem olhadas a uma distância que varia de 1 metro a 4 ou 5 metros. Dificilmente uma pessoa irá examinar uma fotografia pendurada numa parede com uma lente: não é este o propósito da coisa.

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Ferramenta para planejar quadros na parede

A figura mostra o meu sistema para planejar uma exibição de fotos. Eu “ensaio”, por meio deste diagrama, o efeito que uma foto terá em uma parede, e posso alterar o tamanho e extensão da parede de acordo com o lugar real para onde vai a foto. A “pessoa”, com tamanho de 2 metros, está próxima a uma parede de 3 metros para que se tenha a noção do tamanho das cópias, neste caso 1,0×1,2 metros, mas na realidade ninguém olharia uma imagem deste tamanho a esta distância.

Fica evidente que, num cenário de recursos limitados, a alta resolução é mais importante nas imagens que vão para o livro de luxo (20x30cm na melhor das hipóteses) do que nas que vão para a parede.

As revistas nas bancas tem em média a metade da resolução dos bons livros de arte. O pouco peso do papel (sua espessura fina) não permite que muita tinta seja aplicada antes que fique saturado e rasgue. Alta resolução, neste caso, é absolutamente desnecessária.

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Imagine agora que toda a parede na figura acima seja uma só imagem, enorme. É o caso de instalações artísticas e dos outdoors de propaganda pela cidade. A que distância precisamos estar para apreciar a imagem como um todo e entendê-la? no mínimo 10 metros. A esta distância não veremos os pixels, nem os pontos de tinta, nem as emendas de papel.

Pode parecer contrasenso, mas uma imagem enorme como esta pede a menor resolução de todos os casos mencionados até aqui. Como no caso das fotos para exibição, se chegássemos perto veríamos toda a “falta de definição” da imagem, mas aqui também não é esse o propósito da coisa.

Acho que está claro que o que nos interessa em uma imagem, a definição, não é uma função de megapixels, mas de escala e distância!

Bonus: eis uma formuleta que nos diz a maior impressão que podemos fazer (na resolução de 300dpi) com a nossa câmera:

Lado Maior (da cópia) em centímetros = 10x (raiz quadrada dos megapixels)

Exemplo: a raiz quadrada de 25 megapixels é 5; 5×10=50; sua maior cópia pode ter o lado maior com 50cm de tamanho. Simples assim.

Agora vamos pensar no livro de arte com fotos em alta resolução de 30cm de lado: 30=10x (raiz quadrada dos MP), certo? Logo, 9 megapixels produzem uma imagem com 30cm de lado na resolução de 300dpi. 

Imagens em tela

Creio que é seguro dizer que 90% das imagens produzidas hoje destinam-se à Internet (ultra-baixa resolução). Vamos assumir que em breve todos teremos monitores de boa qualidade e poderemos ver imagens com 50x80cm nesses monitores. A internet impõe um limite prático no tamanho de imagens que podem ser olhadas em um site: não temos muito saco para esperar alguns minutos até que uma imagem apareça completa.

Não fiz a matemática para imagens com resolução de 72 ou 96dpi, mas podemos ter certeza de que nossa câmera de 9MP, ou nosso smartphone, são bastante suficientes no quesito resolução, para qualquer coisa que vá parar num site.

Concluindo

Minha intenção foi mostrar algo que não é muito esclarecido pelos fabricantes de equipamento, nem pelas revistas técnicas que são pagas por esses fabricantes, e que vale muito a pena saber, nestes dias em que todos são fotógrafos e a maioria nunca usou filme e laboratório químico: Resolução em megapixels é um dado irrelevante. Da forma com que é usado na propaganda de câmeras, é um tremendo embuste.

A cor é mais importante do que a resolução, para a definição ou nitidez de uma foto. Aonde se coloca o foco, como se ajusta a abertura de diafragma (ex.: não adianta jogar f/32 porque vai ocorrer difração e a foto vai perder nitidez) e o ISO – estes são os fatores que vão resultar em uma foto nítida.

Há muita gente fazendo fotografia, mas poucos sabem o que fazem, e os diretores de arte e os clientes sabem menos ainda. Já topei com elogios rasgados à genialidade do fotógrafo que produziu uma paisagem na qual todas as nuvens estavam “lavadas” de branco, sem detalhe nem textura. Ou o cara que só faz HDR e todas as suas nuvens, mesmo em um dia de sol na Toscana, são cinzentas!

No fim das contas, se você decide ser um fotógrafo profissional nos dias de hoje, precisa definir muito bem o segmento em que vai atuar. É o que eu respondo sempre que me perguntam qual máquina comprar – e me perguntam o tempo todo! Moda é diferente de produto, que é diferente de viagem e paisagem, que é diferente de jornalismo. Um site e um livro de arte são muito diferentes. Leva algum tempo e estudo para se definir o que comprar.

Nove megapixels, para um livro de foto!

Agora: me diz o que eu faço com a minha estupenda Canon EOS 6D?

6 Comentários Megapixels e outras Besteiras, parte 2

  1. ziza agosto 8, 2015 at 10:09 am

    Bom dia, agradeço as informações me auxiliou bastante,
    abs
    Ziza

    Responder
    1. Imageria Digital agosto 10, 2015 at 11:41 am

      Valeu, Ziza. Espero te auxiliar mais. Abraço.

      Responder
  2. Zé Armando agosto 8, 2015 at 4:53 pm

    muitos bjs para vc
    legal, cara, muito legal
    e parabéns, eu estava mesmo precisando ouvir/ler com toda a atençāo o que vc escreveu
    e ler em voz alta que é para me escutar melhor
    agradeço

    Responder
    1. Imageria Digital agosto 10, 2015 at 11:40 am

      Obrigado, Zé Armando. Ler em voz alta é bom mesmo, e eu faço sempre, prá ver se não escrevi nenhuma besteira! Abraço.

      Responder
  3. Edson Campolina agosto 8, 2015 at 10:01 pm

    Muito bom!
    O assunto resolução ideal para impressão tem sido pouco explorado.

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    1. Imageria Digital agosto 10, 2015 at 11:38 am

      Obrigado, Edson. Também fiquei anos em dúvida: quando perguntava o tamanho da imagem, me diziam algo como “1500×2500 pixels” e eu pensava “o que significa isto?” Deu trabalho para penetrar o papo de vendedor dos fabricantes! Abraço.

      Responder

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